As quartas vestimos rosa!
E no último dia 26 eu tirei o meu vestido rosa cintilante de mangas bufantes do armário, vesti meu par de meias calças pink e fui ao cinema assistir: BARBIE!
Esse foi o meu presente de aniversário!
Foto que fiz para divulgar a arara da Barbie no Saindo. Não tirei foto no cinema, porque onde eu fui assistir é bem bléhh e não tinha cenário de papelão da Barbie pra tirar fota, então nem me animei porque a fota ia ser furreba e eu tava sozinha, então ia ser uma selfie furreba com luz horrorosa de hall de cinema do precariado! 😅 Mas o look foi esse gente, com meia calça pink, tênis rosa e make rosa com cílios gigantes de boneca, sem a coroa.
A princípio eu fui com dois intuitos: me divertir (não pensar na vida) e trabalhar ( analisar o figurino pra escrever um textão pro blog). As duas missões NÃO foram cumpridas com sucesso! Fiquei reflexiva o filme todo, me emocionei bastante, chorei, ri e pensei....na vida!
E analisar o figurino????
Nessa missão eu falhei mesmo, e a culpa é do roteiro que é muito bom, e deixou o figurino em segundo plano. O que é perfeito, já que essa é a intenção!
Depois dessa introdução não preciso nem dizer que amei e super recomendo/indico né! Porém, quero e preciso assistir de novo, porquê assisti dublado e senti que a dublagem não entregou tudo não, e deixou muito a desejar em vários momentos (não vou achar ruim assistir de novo!). E também quero olhar com mais carinho para o figurino, mas por hora vou escrever o que ainda está muito fresco em minha memória e latente na alma.
⚠️ CONTÉM SPOILERS ⚠️
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Bom, eu começo a dizer que esse filme foi um dos que mais teve SPOILER do figurino dos protagonistas, também pudera né, acho que uma das coisas mais esperadas desse live action era poder ver o armário da boneca mais famosa do mundo ganhar vida. Então o figurino da Barbie esteriotipada não me surpreendeu tanto, porquê eu já tinha visto tudo. Mas uma coisa é fato, mesmo com tanto spoiler esse figurino ainda conseguiu continuar muito especial, pois ele também conta essa história. Faz parte do quebra cabeças desse universo todo embonecado criado para tratar de questões sociais tão densas e complexas. Então o vestuário deixa a trama ainda mais interessante, já que compõe perfeitamente todo o visual do filme. Arrisco a dizer que pode rolar uma indicação ao Oscar nessa categoria, pelo menos.
E também vamos combinar que as roupas da Barbie são perfeitas! E como já era de se esperar tudo foi muito bem costurado, com caimentos impecáveis, acabamentos perfeitos, roupas passadas no steamer, todas com carinha de nova e feitas sob medida. Um luxo só! Essa é a Barbie!
Amei muito, e achei um berro a referência as patricinhas de Beverly hills logo no início do filme com o armário da Cher versão 2.0 ultra mega Power high tech. Se antes eu queria o armário da Cher, hoje eu quero o armário da Barbie.
Também tiveram algumas questões técnicas que me chamaram a atenção com relação as escolhas da figurinista junto a direção, já que a protagonista tem um armário bem excêntrico, com peças estampadas, texturizadas e com bastante xadrez e listrado.
Lá em 2011, quando comecei a trabalhar com figurino de cinema na saudosa Pauliwood, aprendi que nesse universo não existia xadrez e nem listrado, porque dá glitch na tela. - o glitch é uma falha que ocorre do momento em que a imagem é captada até o momento em que é transmitida na tela, ela fica desfigurada e causa desconforto a vista. - Então quando vejo essas escolhas na telona acho incrível, porque sei que a pós produção deu uma raça na edição final, apesar de que acredito que com a evolução das tecnologias os equipamentos de filmagem hollywoodianos não sofram mais desse mal.
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E quem assistiu percebeu que a Barbieland é assim, toda colorida e estampada, ou seja, as escolhas que foram apresentadas para o público não são nada comuns, isso já dá um quê a mais para a produção, visualmente falando.
Quando o choque de realidade começa, a Barbie chega no nosso mundo e tudo fica cinza, é uma transição muito suave, porém chocante, é estranho "sair" daquele universo todo alegre e colorido e "voltar" para o nosso mundo, a sensação de tristeza é inevitável. E aqui eu cito a psicologia das cores, porque as escolhas dessa paleta foram pensadas principalmente nas emoções que seriam despertadas no público e foi um trabalho excelente, as cores fizeram a gente sentir.
Bom, essa transição de universos é muito simbólica em termos de matriarcado X patriarcado. É a defesa da Greta em prol do regime social em que as mulheres tem a soberania. Pelo menos essa foi a minha leitura, já que a Barbieland (matriarcado) é leve, alegre, doce (candy colors por todo o figurino e cenário), sutil, sorridente, brilhante e divertida, e o mundo real (patriarcado) é acinzentado, agressivo e deprimente.
E onde o patriarcado reina a moda é muito pragmática e sempre pensada no ambiente de trabalho. As cores são neutras, a escala de cinzas bomba nas vitrines, araras, dentro dos armários, metrôs e baladas, nas casas, carros, eletrodomésticos e por aí vai.
Inclusive li no @carvalhando que foi feito um estudo recente sobre a ausência de cores no nosso dia-a-dia e o que isso tem causado em nossos cérebros. O que tenho a dizer é que os resultados não são nada bons, e depressão está no ranking da doenças causadas pela falta de alegria em nossas vidas.
É! Por aqui tudo ficou meio trevoso e a Barbie veio devolver o colorido ao mundo real. A Pantone inclusive elegeu o viva magenta como a cor de 2023, um tom de rosa quente bem intenso, aquele mesmo rosa do logo da Barbie. Porque já que as cores têm sido vistas com olhos polêmicos, escolher a cor mais polêmica entre os terráqueos é uma opção sim, para que, quem sabe a paz entre as cores e os humanos seja selada de uma vez por todas no planeta Terra. E que as cores sejam bem-vindas porque as BARBIE'S são um verdadeiro arco-íris, e nenhuma restrição de cores no figurino delas a gente vê ali.
Então vamos com mais uma curiosidade...
O rosa, diferente das listras, do xadrez e as estampas, é muito bem vindo nas telonas.
O tão polêmico cor de rosa é uma variante do vermelho, que por sua vez tem um comportamento bem instável perante a luz, ele muda de tom com muita facilidade por ter aquela propriedade furta-cor. E isso dificulta bastante o trabalho com ele, então muitos diretores optam por bani-lo e usar o rosa e seus variados tons para o vermelho não deixar de existir; já que apesar de uma variar da outra, uma só é furta cor, e com a luz certa fica fácil chegar no tom desejado. Então isso já facilitou um monte pra edição, porquê rosa pode no cinema!
Apesar da cor não ser predominante nos figurinos principais ela ajuda a trama a passar uma mensagem bem importante, a do poder feminino. Já que ela reina nos macacões usados na operação de resgate de consciência das BARBIE'S que sofreram com a lavagem cerebral do patriarcado do Ken e continua no momento em que a constituição das BARBIE'S é consolidada. Então para simbolizar a união e o poder das mulheres nada melhor que usar e abusar da cor que também representa força.
Outra coisa que também me chamou a atenção foi a escolha da roupa de ginástica anos 80 para a chegada da protagonista ao seu destino.
Esse look é bem provocativo aos olhos do patriarcado, já que deixa a silhueta bem delineada, as curvas muito acentuadas e a vagina bem marcada. Pega a visão e soma a reação dos figurantes que interpretam os boy lixoso que tem por aí. É inevitável não pensar naquele famoso e bem desagradável, diga-se de passagem, questionamento dos macho, "mas com que roupa ela tava?".
Sim, a Greta trata de abuso e assédio sexual feat cultura do estupro com uma simplicidade tão grande, em apenas uma cena, com um look e um olhar seguido de alguns gestos indigestos. O estômago revira porque a gente vê o desconforto no olhar da Barbie e a sororidade grita! Sentimos a dor dela, porque todas nós já passamos por isso e sabemos o quão ruim é ser tratada e vista como uma boneca inflável.
Além do que, confesso que muitas vezes antes de sair de casa me pego conferindo o comprimento da saia/ vestido e tamanho do decote, só para evitar ouvir algum comentário desagradável ou invasivo/indelicado. E p0®®@ isso é chato demais, é uma prisão! Quando eu andava de transporte público em São Paulo era pior ainda. Um porre ter que pensar na roupa que vai vestir às 4:30 da manhã, e não era só pensar nas cores, texturas e estampas, era pensar a segurança também, imaginar situações e possíveis posições que eu teria que ficar caso acontecesse algumas das hipóteses que surgiam na minha cabeça e não correr o risco de ser surpreendida de forma extremamente desagradável com uma mão boba no metrô.
Já na Barbieland as BARBIE'S dão a impressão de se vestirem de uma forma diferente da nossa, de maneira simples e descomplicada. Elas vestem porquê é bonito, é legal, tem a ver com o estilo delas e o humor do dia. Não existem preocupações com comprimentos, comentários ou funções da vida, tudo é lúdico e parece um sonho. A palavra de ordem é se divertir na hora de se vestir, e ser você mesma. Aliás esse é o toque final da produção do look de uma verdadeira Barbie, ser você mesma! E é muito bonito ver a personalidade de cada Barbie ilustrada nas composições dos figurinos. Esse incentivo a busca da sua identidade , de se permitir ao autoconhecimento também é transmitida através das roupas, e os uniformes sempre estiveram fora de moda na Barbieland, mas enquanto isso na Kenland...
Vô mentir não, eu amo um musical e amei que tem um pouco dessa vibe no filme. As coreografias são muito legais, já fiquei com o 🆒 pegany fogo de vontade de ir numa balada só pra ver as bee fazeny as coreo perfeita sem defeitos no meio da pixta.
Delírios a parte, vamos ao que interessa, figurino!
E quando o patriarcado é instaurado na Barbieland e a ditadura do Ken entra em vigor, somos surpreendidas com essa cena mara de musical bapho com milhões de referências antigueras e todos os kens vestidos de camiseta preta e calça preta -uniforme = a praticidade e falta de identidade imposta pelo patriarcado- , então a dancinha acaba e corta para a casa dos sonhos, que agora era a casa dos pesadelos da Barbie, e a gente sente mais tristeza ainda. Aquele mundo colorido e alegre tinha ido embora, o preto e toda a sua seriedade and peso feat drama chega em toda sua glória para reinar, mas por um curto período de tempo.
Porém, nesse momento o meu coração acelerou, amo muito contrastar rosa com preto, e o cenário rosa contrastando com o figurino preto é lindo demais, além de trazer leveza a situação, já que o Ken é bem bobão e só faz besteira, então não era o patriarcado de fato, que é pesado, era um patriarcado mais a brisa do Ken, foi a interpretação, o ponto de vista do boneco acessório mais fútil da história dos brinquedos sobre um regime social. Eu diria mais, foi um recorte bem cômico, humorado e realista de como é e funciona o mundo real, com a forte presença das cores no figurino e cenário, exercendo a função de trabalhar as emoções no público e trazer reflexões a mente.
Um ponto importante aqui também é que na Barbieland o Ken é colorido, e quando ele chega ao mundo real a leitura que as pessoas tem dele é de que ele é homossexual por conta das suas roupas apertadas e estampadas em tons vibrantes. Nesse frame eu vi mais uma sacada genial do roteiro e da diretora, que aborda lgbtqifobia e o tabu do homem vaidoso de maneira bem simples, com a mesma receita usada na cena de assédio da Barbie.
Entenderam como o figurino também foi parte crucial do filme? Ele compôs o roteiro, e conseguiu descrever várias situações bizarras do cotidiano no patriarcado com maestria.
E apesar dos pesares, os kens, mesmo vestidos de preto e cinza ainda possuíam muita personalidade, estilo e vaidade. Não se tornaram homens de terno!
Agora eu vou falar da minha cena favorita. Primeiro que eu achei o longa riquíssimo em recursos visuais, e achei muito legal que a cena da discussão da Barbie e do Ken, aquela que ele arremessa as roupas dela pela sacada, é o momento the Sims do filme. E a referência as skins de jogos tá ali, é o metaverso da Barbie. É muito interessante a forma como as roupas das edições especiais são apresentadas, sem serem vestidas pela protagonista e com as informações técnicas ao lado.
E vamos combinar que as atuações são impecáveis né, mas para que elas fossem perfeitas sem defeitos teve que rolar uma intervenção figurinística por ali. E a trend da pele a mostra entrou com tudo para facilitar a mobilidade dos atores e permitir que as movimentações que eles fazem ao imitarem as ações de um boneco ficasse incrível.
O que eu mais vi nos looks foi referência as modas 80s & 90s.
Na festa das BARBIE'S o metalizado, volumes e movimentos chegaram com tudo nos looks. O brilho do metal e as texturas, são uma aposta bem forte que veremos muito nas vitrines dos próximos anos, junto aos exageros dos anos 80.
O armário da Barbie estranha também tem muitas referências aos anos 80 com os tons neon, as ombreiras, as jaquetas multicoloridas de poliéster...
Já os anos 90 marcaram presença nos vestidos e conjuntos da Barbie, e mais uma vez eu vi a Cher com os seus conjuntinhos xadrez desfilando por Beverly Hills. E eu vi mesmo que o grunge ia voltar com tudo na moda, e parece que voltou e veio para ficar por um tempo, e mais uma vez ele se populariza através do armário de uma patricinha.
Então vamos de momento curiosidade...
Quando você lê grunge e patricinhas de Beverly Hills na mesma frase parece que não combina né, mas eu digo pra você que combina sim e que tem tudo a ver. O grunge virou febre com o Nirvana, banda que popularizou o estilo e influenciou muitos jovens dos anos 90. Então as grandes marcas de moda viram naquele jeito de se vestir uma mina de ouro e logo trataram de repaginar a ideia, transformando-a em algo mais palatável para ter a devida aceitação do público. Diluíram o estilo nas estampas, cores e comprimentos, e boom: nascem os conjuntinhos xadrez da Cher e suas camisas compridas de mangas bem longas, que têm suas primeiras aparições no figurino do filme, um excelente marketing diga-se de passagem; elas
viraram uma super tendência e foram parar nas diversas araras de lojas de departamento espalhadas pelo mundo afora.
Inclusive aqui vale ressaltar que a Channel, depois do sucesso do filme o usou como referência, e se inspirou no look icônico xadrez amarelo da protagonista para criar uma peça de uma coleção dos anos 90.
Então agora adivinha quem deu pinta no figurino da Barbie? A própria!
Desde 2018 a Margot Robbie é embaixadora da marca, que colaborou com o filme nas composições dos looks da boneca. A collab Jacqueline Durran feat. Chanel foi a cereja do bolo dessa produção, e que equipe não é mesmo! Queria um documentário do making of do figurino do filme.
Outra aparição do estilo no filme foi dentro do armário da adolescente humana que ajuda a Barbie a restabelecer a ordem na Barbieland. Ela e as suas amigas fazem a linha grunge raiz, vestindo os seus belos moletons esgarçados, desbotados e com capuz. Calça jeans e tênis para fechar o look, elas são o núcleo consciente do rolê, que entendem perfeitamente como as coisas funcionam no mundo real e demonstram insatisfação e revolta com o patriarcado através da aparência soft trevosa.
E pra finalizar vamos falar do processo de humanização da Barbie através do figurino. A escolha do vestido amarelo foi bem inteligente, já que é uma cor que estimula a criatividade e os processos mentais. E quele momento profundo eu li como uma conversa de Barbie pra Barbie, ela sendo a melhor amiga dela em uma viagem de imersão ao seu interior, onde ele se encontra e faz uma escolha que muda a sua vida.
Também gostei da ideia do processo começar pelos pés, já que os pés da Barbie estão sempre prontos para calçar saltos XV. A cena em que os pés dela ficam chato é bem engraçada e as reações das outras BARBIE'S são ótimas.
Aqui eu vi mais uma crítica, e dessa vez é sobre a moda opressora imposta para as mulheres, que é toda embasada na cultura da dor e do sofrimento, sabe aquela máxima do pra ficar bonita tem que sofrer? Então, o uso de saltos se encaixa perfeitamente nessa ideia, porque eles não combinam com a nossa rotina corrida, calçadas esburacadas e cheias de oscilações, grandes distâncias mais a lei da inércia entrando em ação nos transportes públicos. Além do que o uso recorrente de saltos faz mal a saúde, e prejudica coluna e pés.
O final é ótimo, e o plano detalhe dos pés dela calçando os chinelos que a Barbie estranha oferece a ela antes de iniciar a sua jornada pelo mundo real fecha com chave de ouro essa história emocionante, que é sobre a libertação das mulheres.
Texto por Talita Berribilli, formada em tecnologia têxtil pela Fatec-AM, dona do Saindo do Armário brechó
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