CAPÍTULO II
O CONSUMO DESENFREADO
Para iniciar esse capítulo, seria interessante fazer uma linha do tempo da História do Consumo de Moda.
No livro Moda em Sintonia, essa breve linha do tempo é apresentada dividida em quatro fases, de acordo com o livro O Império do Efêmero (1989), de Lipovstky.
A primeira fase - a da moda de cem anos (1857/1960), inicia com a proposta de Frederic Worth de desenvolver e oferecer duas coleções por ano, de alta-costura:uma de inverno e outra de verão, independentemente da demanda de suas clientes[...]Naquele momento, a moda se organizava como tantos outros sistemas autoritários da modernidade: os costureiros poderosos ditavam o que era moda e orquestravam seu lançamento. Os valores então cultuados pela moda eram a novidade, a elegância feminina e a sazonalidade. (De Carli; Sehbe, p.39, 2010)
A segunda fase – da moda moderna que Lipovestky chamou “Moda aberta”. Seu início é embalado pelos tumultuados anos 60, quando os desejos dos consumidores urbanos dos países democráticos, capitalistas e ocidentais começam a se mostrar mais impositivos diante da autoridade do grande criador. O sistema da moda, assim como todos os outros sistemas estáveis e autoritários (escola, Igreja, família,trabalho) começa a ruir com os abalos da contra-cultura. O prêt-a-porter, representante da “Moda aberta”, que democraticamente amplia o acesso dos consumidores, impõe-se sobre a alta-costura[...]De Carli (2002) afirma que nesse novo vestir estão implícitas não só a rebeldia contra os modelos hierárquicos estabelecidos, mas a moda como acelerador de consumo. A eufórica sensação de progresso econômico no pós-guerra estabelece um páreo frenético entre os jovens em busca da última moda e os estilistas na criação da próxima. Os valores cultuados para a moda são efemeridade, democracia e multiplicidade. O último decorre da segmentação da moda para atender à diversidade que passa a ser percebida no universo de consumidores. (De Carli; Sehbe, p. 39, 2010).
A terceira fase – a da moda consumada, é a do sujeito autônomo. O consumidor é o protagonista das escolhas, ele reorganiza o uso da moda[...]A moda nessa fase é regulada pela inconstância e pela hiperescolha do consumidor. Todas as classes são levadas pela embriaguez da mudança, que ultrapassa a moda do vestuário e ganha o universo dos objetos, da cultura, dos discursos, enquanto a sedução reorganiza o contexto cotidiano, a informação e a cena política. O consumidor quer conforto,prazer, bem-estar e qualidade de vida, e os bens consumidos são para usar, para facilitar as atividades cotidianas, para atender aos caprichos individuais. É o estágio da moda no fim do milênio. (De Carli; Sehbe, p.40, 2010).
A quarta fase- é a da moda, que acontece neste início de milênio, que está em tempo de incubação, ainda não tem uma teorização concluída nem um nome definitivo, mas podemos arriscar chamando-a de Moda da ética anunciada. Fatos recorrentes e mudanças no cenário da moda estão sendo rastreados, agrupados e constatados com o objetivo de formalizar um estudo.(De Carli; Sehbe, p.40, 2010).
Já no livro "Moda Uma Filosofia", Svendsen resume essa linha do tempo em era moderna e pós - moderna, e nos mostra que os seres que formavam a sociedade moderna eram produtores, já o pós - modernismo transformou o produtor em consumidor.
Essa imagem de que somos mais consumidores que produtores é reforçada diariamente pelo sistema porque consumimos do dia em que nascemos até o dia em que morremos, e produzimos por apenas um curto período de tempo da nossa existência. Sem o consumo o sistema não existe, por isso é tão importante para a manutenção da lógica que essa ideia esteja enraizada na sociedade.
E aqui fica inevitável não entrar em questões como o fetichismo da mercadoria e a alienação do trabalho para explicar a lógica de manutenção do consumo.
De todas as teorias do consumo que existem, a que eu e Svendsen mais acreditamos definir com precisão alguns comportamentos sociais padrões é o "fetichismo da mercadoria".
Fetichismo vem da palavra feitiço, uma ótima definição para o que a sociedade vive quando o assunto é aquisição de mercadorias. Esse conceito nos mostra que a dinâmica do consumo funciona como um ciclo muito injusto e cruel de trabalho.
O proletário produz, e ele produz um produto que não consegue consumir, justamente por não ser remunerado de forma justa. Logo o produtor deseja o produto inatingível, e a magia aconteceu, o feitiço foi lançado e aquele objeto passou a se tornar irresistível e agora vale tudo para realizar aquele "sonho de consumo". Esse é o meu resumo do fetichismo da mercadoria, eu não sou especialista no assunto, mas li muito sobre e assisti a ótimos vídeos didáticos, no entanto se alguém tiver alguma correção a fazer ou algo a acrescentar, por favor dê a sua contribuição nos comentários. E é claro que além da inacessibilidade que torna o produto irresistível, tem todo o trabalho do feiticeiro marketing por trás do feitiço da mercadoria.
A sociedade do consumo nos diz que para sermos aceitos precisamos ter, e para ter é preciso consumir, para consumir é preciso ter dinheiro, para ter dinheiro é preciso trabalhar. Então x cidadã trabalha incansavelmente de forma determinada, faz horas extras, bicos de fim de semana, fica doente e cansado; mas elx tem um sonho, o sonho de atingir e alcançar o mesmo patamar da pirâmide social que x patrão delx ocupa. E dessa forma elx também vai poder consumir o produto que ele produz.
Mas você já parou para pensar que a maior parcela da população se encontra na classe proletária, as grandes fortunas se concentram em poucas mãos, e para ser um milionário dentro do sistema que vivemos é necessário ser herdeiro? Porém a ideia de que para sermos consideradxs vencedores é preciso consumir já está tão enraizada na cabeça da massa de manobra que o consumo desenfreado tomou conta de todos nós.
E isso me leva a dizer com a maior tranquilidade do mundo que a culpa não é nossa, não é minha, não é sua, a culpa é do sistema! Ele trabalha e funciona dessa maneira, o sistema é responsável por induzir o nosso comportamento para o consumo. O algoritmo, o tão criticado e temido algoritmo é uma ferramenta criada pelo sistema que nos induz a consumir exatamente aquilo o que o sistema quer. E o que vivemos é uma escravidão pós moderna que nos prende ao ciclo trabalho - consumo/ consumo- trabalho.
O que me leva ao filme "Amor por contrato", em que uma família fictícia se muda para um subúrbio norte americano com o principal intuito de induzir seus vizinhos a consumirem o mesmo que eles. O filme parece ser meio absurdo, mas quando paramos para analisar a profissão digital influencer ela se resume a isso. Pessoas que divulgam produtos em suas redes sociais para serem consumidos por seus seguidores com cupons de desconto. E assim uma marca ou um produto é promovido e vendido.
Porém analisar o comportamento social de consumo é tarefa árdua por diversos fatores: o cultural, social, econômico e afins, então ter uma definição concreta sobre hábitos de consumo é algo um tanto quanto distante. Trabalhamos com algumas projeções de futuro e voltamos no passado para observar os padrões repetitivos. Pesquisa de campo é uma das ferramentas que mais utilizei para esse TCC e nesse capítulo específico foi essa análise que me fez tirar algumas conclusões atuais.
Como, por exemplo, porque eu me atenho tanto a teoria do fetichismo da mercadoria como a explicação mais plausível para os hábitos de consumo da sociedade...
Então aqui vai uma análise pessoal, com um pequeno espaço amostral de pesquisa.
Sou dona do Saindo do Armário brechó, e trabalho no online e no presencial em alguns espaços e eventos específicos. Quando olho para a minha planilha de vendas o que vejo é que as peças mais vendidas são as de grandes e renomadas marcas.
"Óohh, posso ter um vestido de seda da Farm a preço de Marisa, quero! Vou exibir para todo mundo que tenho poder aquisitivo para usar roupas dessa marca e assim eu serei amada e respeitada em meu círculo social." (sociedade do ter - fetichismo da mercadoria: quero ter o que eu produzo, mas não tenho dinheiro para ter, pois sou mal remunerada e explorada pelo patrão). Essa é a principal linha de raciocínio que motiva uma compra de brechó, seja ela online ou presencial. A etiqueta ganha disparado em primeiro lugar na hora da tomada de decisão; em segundo lugar vem as peças com cgc, que possuem uma qualidade superior e durabilidade maior, além da exclusividade, pois são de tecidos e estampas que não se produzem mais no mercado. Em terceiro lugar vem o meio ambiente e a sustentabilidade como motivação na escolha da compra do produto de segunda mão ou vintage.
Dentro desse nicho do brechó as coisas não mudaram muito de 2009 para 2023. As motivações de consumo continuam as mesmas. Até mesmo porque estudos comprovam que o boom dos brechós se deu em 2001 com a aparição da Júlia Roberts no red carpet do Oscar em que ela vestia um Valentino vintage.
Aqui temos um reflexo da teoria que mais estudo sobre o consumo. E o feitiço foi lançado naquele red carpet, o principal ingrediente da poção mágica era a atriz, que estava no auge da carreira e levou a tão concorrida estatueta da premiação para a casa. O vestido em questão ainda aparece na lista dos mais elegantes de toda a história do Oscar, e isso no imaginário coletivo é algo muito poderoso, que motiva o consumo de algo que antes era menosprezado por grande parcela da sociedade, e dessa forma o estilo vintage entra na sua era do auge e do glamour. E onde encontrar roupas e acessórios vintage? Em brechós! E assim começou o sucesso global dessa febre chamada brechó .
Porém nem tudo o que é febre é bom. E quando a preocupação com a crise climática se tornou assustadora especialistas disseram que deveríamos consumir produtos de segunda mão para que os efeitos da destruição do meio ambiente fossem minimizados, e assim vem o segundo boom dos brechós.
Essa justificativa foi a que me motivou a escrever esse estudo, eu realmente acreditava que esse era um caminho. E desde então a lista de 1.001 motivos para consumir brechó só aumenta e algumas fake news aparecem por lá.
A primeira delas é a de que brechó é circular. E não é não! Eu posso te provar: Clique aqui!
O terceiro boom dos brechós aqui no Brasil - brechó na Europa é algo muito comum, eles criaram muitas guerras ao longo de sua existência, a consequência foi a fome e a escassez, o que levou ao consumo de produtos de segunda mão, os famosos mercados de pulga tiveram origem nos períodos mais críticos de guerra. - vêm em 2016, período do golpe político em que a presidenta Dilma foi retirada do poder e a economia do país começou a entrar em colapso com as altas taxas de desemprego. Toda crise econômica leva a adaptação, vestir é uma necessidade dentro da civilização, então o preconceito com a energia do morto que a roupa de brechó carrega perdeu peso, e o valor acessível das roupas que são de marca renomada e qualidade inquestionável passou a ganhar relevância, e o consumo de peças de segunda mão passou a crescer de forma assustadora, principalmente no período da pandemia que atingiu o mundo todo. As grifes agora possuem seus próprios brechós, e o modelo de negócio agora é um sucesso global.
Para concluir esse capítulo compartilho com vocês a minha visão de mundo, que mudou muito. De quando escrevi esse TCC pra cá eu adquiri mais conhecimento e experiência de vida, então a minha conclusão de agora é que enquanto nós nos enxergamos como consumidores apenas, e tivermos a inocência de acreditar que vamos transformar o mundo através da maneira que consumimos entraremos em extinção. Vide que na Europa essa prática é secular e eles são o continente que mais poluem e destroem o meio ambiente, ou seja, isso é ilusório, pois a responsabilidade é da indústria e dos milionários, que são os que mais poluem com seus jatinhos particulares. Você acha que a culpa dos problemas do planeta é a sua geladeira? Não é não! Isso é o que a mídia quer que você acredite, para que o sistema de desigualdade social se mantenha em pleno funcionamento.
De acordo com a BBC as geladeiras são responsáveis por emitirem 10% do CO2 que destrói a camada de ozônio; já um jatinho particular pode emitir 2 toneladas de CO2 em 1h de vôo segundo o site do Instituto Humanitas Unisinos. Ou seja, o setor do luxo direcionado aos super ricos e milionários é o que mais polui em termos de produção e consumo. Por isso é de extrema importância taxar grandes fortunas para resolver questões de cunho ambiental, pois super ricos são poluidores não pagadores, e quem paga o pato é sempre o pobre.Porque você até pode ter práticas de consumo consciente,mas enquanto os super ricos existirem para consumirem o mercado de luxo e continuarem a voarem em seus jatos particulares, a sua ação não vai reverberar em nada no planeta Terra. Não me entenda mal, não disse para você não ter cuidado na hora de consumir e fazer escolhas inteligentes para o planeta e a sociedade, o que eu quero dizer é que precisamos despertar para o que nos cega, que é o capital, e agir de maneira cortante contra ele. Sabe aquela máxima de eliminar o que te faz mal da sua vida? Então ela se aplica aqui.
Viva a revolução!
Referências:
canal Cortes do História Pública
P.S.: Foi um parto escrever esse capítulo, tive um bloqueio enorme de criatividade. Não queria entregar de qualquer jeito, enfim, procrastinei mas valeu a pena, fiquei satisfeita com o resultado final. Espero que você também tenha gostado. Deixe seu feedback nos comentários e nos ajude a entregar um conteúdo de qualidade.

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Eu amei demais todo seu texto! Deu um toque especial na hora que finalizou com o Viva a Revolucao! Parabéns!!
ResponderExcluirAh que demais ler esse comentário logo pela manhã. Gratidão por compartilhar seu feedback, fico muito feliz que tenha gostado! Acompanhe o nosso blog, de vez em quando a gente posta uns textão hihihi 😘
ExcluirParabéns pelo texto, Talita!
ExcluirSucesso! 👏🏽😊
Só agradece ❣️🥰😘
ExcluirParabéns pelo texto e continue sempre assim uma mulher uma mãe uma menina 🥰
ResponderExcluir😍😍😍 gratidão ❣️🥰😘
ExcluirAgradeço as explicações , me ajudaram a compreender melhor esses mundo das vestimentas
ResponderExcluirAgradeço as explicações , me ajudaram a compreender melhor esses mundo das vestimentas
ResponderExcluir😍😍😍 que delícia ler esse comentário! Esse é o meu intuito com o blog, compartilhar conhecimento, porquê conhecimento bom é conhecimento compartilhado! Só agradece seu feedback! 😘
ExcluirCaraaalho que texto 👏🏽👏🏽👏🏽 mandou muito bem na história, contexto, português impecável e conclusão! Orgulhosa da minha irmã ❤
ResponderExcluirAhhhhh caiu uma lagriminha aqui❣️ gratidão por ler, comentar, me apoiar, me fortalecer. Amo te deixar orgulhosa e amo ser sua irmã ❣️😘
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