IMPORTAÇÃO DE ROUPAS DE SEGUNDA MÃO
Em pleno fim de ano, a época dos maiores e melhores bazares de Igreja, venho eu aqui contar para você que até aquele lugarzinho ingênuo e cheio de velhinhas doces e fofas para te atender, também tem os seus pecados.
Durante o meu processo de pesquisa para o TCC tive o prazer de entrevistar uma das professoras mais marcantes que eu já tive, a querida Profa. Maria Adelina Pereira. Enquanto conversávamos ela me orientou a pesquisar o tema desse capítulo, e me concedeu uma informação importante, acrescentar Igreja católica as minhas buscas.
A princípio a sociedade e a mídia pintam essa ação como um ato filantrópico, porém é só mais uma artimanha do sistema para lidar com o descarte dos excedentes que a indústria produz.
Os países que mais exportam esse tipo de produto são: Estados Unidos, Itália e Alemanha.
Os EUA é um dos países que mais produz em excesso,o lifestyle aderido pela sociedade estadunidense é um culto ao consumo desenfreado. O berço da moda está localizado na península itálica, que integra a lista dos 15 países que mais emitem CO2. A Alemanha é a maior produtora de equipamentos têxteis, essa informação já é suficiente para entender que esse é um dos mercados que mais impulsionam a economia do país, certo!?
Depois de apresentar essas informações relevantes a vocês volto a Igreja católica, que tem um importante papel social quando o assunto é colonização, e que aparece mascarada em ações sociais e comunitárias.
Doações são muito comuns dentro dessa comunidade, e roupas está no ranking dos principais produtos recebidos pelas instituições, e nos países citados acima as grandes marcas recorrem a essa ferramenta como forma de descartar os excedentes de coleções passadas.
A Igreja é utilizada como meio para que o descarte seja realizado em países colonizados, no caso os que estão localizados na América Latina e continente africano.
O lixo chega travestido de boa ação, mas na verdade o que vemos aqui é mais uma variante do que tem acontecido em desertos, como o Atacama, que por um acaso está localizado na América Latina.
Ele virou um grande lixão a céu aberto de roupas e eletrônicos.
O mais intrigante nisso tudo é que ao invés de a indústria estar preocupada em diminuir a produção ela busca por alternativas nada inteligentes para descartar excedentes.
Agora acompanha comigo o porquê a alternativa não é cabível:
1) o transporte dessas roupas é feito através de navios e gera muito impacto ambiental, como por exemplo, a alta emissão de CO2;
2)Não existem pessoas suficientes no mundo para vestir tudo o que a indústria produz, daí o deserto do Atacama ter se tornado um grande lixão de roupas.
3) os países menos desenvolvidos não são o lixo da Europa e outros países do norte. Cada um que tome conta do seu lixo! O nome disso é responsabilidade socioambiental.
4)essa prática só é benéfica para os donos das grandes empresas, já que eles se livram do lixo sem pagar impostos, taxas ou multas.
Agora vamos percorrer o caminho que essas roupas fazem para chegar até o seu armário...
E bora de situação hipotética, que eu adoro!
Uma grande Maison italiana está com o estoque no limite, peças encalhadas de antigas coleções tomam conta dos galpões. Como resolver a questão?
Uma das acionistas da grande maison tem uma relação próxima com um bispo da Igreja católica, logo sua secretária aciona esse contato e diz estar disposta a disponibilizar uma boa quantia de roupas para doação à instituição, e tcharam: temos um container cheio de roupas de designer italiano prontas para chegarem ao Brasil.
A Igreja fica feliz por receber uma quantia expressiva de dinheiro e a empresa fica feliz, pois conseguiu se livrar do lixo que produziu sem ser multada.
Aqui vale ressaltar que boa parte das roupas em estoque são de segunda mão também, já que elas retornam as marcas através de campanhas de conscientização do consumidor com relação ao meio ambiente.
Sabe aquela marca que dá desconto quando você leva na hora da compra uma ou mais peças de antigas coleções que você não usa mais? Então, elas são descartadas em suas respectivas colônias, já que as mesmas não trabalham com reciclagem de tecidos e acessórios têxteis. Esse é um ótimo exemplo de colonialismo ambiental, que significa explorar as condições ambientais dos países menos desenvolvidos.
Lembre-se que esse tipo de importação é proibida em países como o Brasil, e elas só podem acontecer dentro da lei quando vem em caráter de doação.
Ao chegarem ao seu local de destino, essas peças são direcionadas aos bazares das instituições e vendidas a preço de banana, se é que ainda dá para usar essa expressão.
Eu, você, ou qualquer outra pessoa já teve a experiência de ir a um desses bazares, e mal sabemos que algumas das peças garimpadas por nós pode ter atravessado o oceano antes de entrar no nosso armário.
Aqui, temos mais uma vez a confirmação de que o problema não é o consumidor, e sim a indústria e seu modelo de produção insustentável, já que ela não tem nem onde fazer o descarte correto de seus excedentes, que dirá sustentar qualquer campanha ou ação de cunho ambiental, uma vez que nunca atuou dessa forma, vide a logística reversa super falha que fazem com as campanhas de "conscientização".
Então, quem disse que eu tô jogando o meu lixo na calçada do vizinho? É só uma doação, uma ação filantrópica, nada demais! Porém a Secex (Secretaria de Comércio Exterior) anda bem desconfiada dessa história devido ao crescente número de importações dessa categoria, uma nova portaria com regras mais rigorosas será publicada no início da próxima semana. Sim, essa notícia é quente e saiu hoje dia 11/12/2023.
"O crescimento do volume de importações do gênero em 1999 pode ser avaliado através do número de pedidos deferidos no período, que corresponde a 121 mil quilos de roupas. De janeiro a junho deste ano, já foram 533 mil quilos. Estão na fila aguardando autorização uma série de pedidos, que totaliza 838 mil quilos. Cinco importadoras, cujas mercadorias somavam 3,732 milhões de quilos, tiveram suas solicitações indeferidas, por não cumprirem todos os requisitos exigidos para a importação. "Pode estar ocorrendo um desvio de finalidade no uso dessas mercadorias", suspeita a secretária de Comércio Exterior, Lytha Spíndola, sem citar qualquer caso concreto de fraude."
Lembra daquela história que eu contei no primeiro capítulo sobre os efluentes? Que em dias de chuva as empresas liberam eles sem tratamento pois fica mais difícil identificar a origem do poluente, para assim ser notificado e multado? - clique aqui para ler esse capítulo - Então, aqui fica bem perceptível que a confecção, responsável pelo produto final dentro da cadeia têxtil, encontrou a sua chuva e a brecha veio através da religião. Porém torcemos para que as novas regras da Secex sejam aplicadas em outros países colonizados, principalmente nos do continente africano, já que lá a situação é ainda pior, uma vez que a importação de produtos de segunda mão está dentro da lei, então as grandes marcas aproveitam para vender essas peças em lotes fechados, e 90% desses lotes ou mais chega carregado de roupas que são impossíveis de comercializar, por isso elas vão para o lixo; e a indústria comece a repensar e agir rapidamente para que mudanças no modelo de produção sejam realizadas e o meio ambiente possa voltar a respirar em paz.
*O capítulo original desse trabalho foi escrito a base de deduções ingênuas e inocentes de uma menina que foi criada dentro da Igreja católica, mas nunca se converteu de fato.
Na época a imagem que eu tinha da instituição não era tão realista.
Confesso que esse capítulo se tornou uma grande lacuna na minha mente (o que a Igreja tem a ver com isso? Porque ela tá no meio dessa história?), uma vez que as informações que consegui na época eram bem escassas. Hoje com o conhecimento que tenho sobre a religião e algumas informações que encontrei no perfil do @joao_pacifico consegui estruturar muito melhor o amontoado de conteúdos espalhados na minha mente e acredito ter conseguido trazer um um texto de qualidade para vocês. Então conta pra mim nos comentários o que você achou. Beijos gliterinados e boa semana para vocês!
Referências:
Texto por Talita Berribilli,
formada em tecnologia têxtil
pela Fatec-AM,
dona do
Saindo do Armário brechó
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Nossa, chocada com tudo, porém nada surpresa! Valeu demais ler esse textão super bem escrito e cheio de informação ✨❤
ResponderExcluirTe amo 😘
Tistreza né! Eu que só agradeço o views e o comentário! Tiamu também ❣️🥰😘
ExcluirParabéns pelo texto!
ResponderExcluir😍😍 só agradece ❣️😘
ExcluirQue top! Muito bem inscrito!
ResponderExcluir😍😍 só agradece!
ExcluirCaramba caridade e doações é uma boa capa pra o descarte dos restos inúteis eu nunca tinha visto assim e centenas também não, quanta ingenuidade
ResponderExcluirPois é, eu precisei estudar brechó pra acessar essa informação. Fico feliz que eu tenha trazido um conteúdo de qualidade pra você. Gratidão pelo seu comentário!
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